Num país onde as fronteiras entre o académico e o amador raramente se cruzam, o Conversas do Éter, congresso de radiocomunicações realizado anualmente na Universidade de Aveiro, surge como uma exceção notável — e necessária.
Criado com o objetivo explícito de aproximar duas comunidades tradicionalmente afastadas — os radioamadores e os investigadores científicos — o evento é mais do que um simpósio técnico. É uma plataforma de diálogo intergeracional e interdisciplinar, onde operadores com décadas de experiência empírica partilham espaço e tempo com académicos imersos em modelos matemáticos e redes neurais.
A complementaridade é evidente. Os radioamadores conhecem como ninguém os caprichos da propagação ionosférica, a resiliência dos modos digitais ou os desafios de operar num barco em alto-mar. Já os investigadores dominam a teoria de antenas, a modelação eletromagnética e a síntese de circuitos. Juntos, produzem algo raro: um entendimento mais holístico da realidade radioelétrica — onde o saber de campo encontra validação teórica, e a teoria ganha corpo em casos reais.
Este congresso distingue-se também por incluir o regulador nacional, completando assim o triângulo necessário à construção de uma comunidade funcional: operadores, desenvolvedores e legisladores. A presença da ANACOM (ou equivalente) em edições passadas reforça a maturidade da iniciativa e a sua vocação para a construção de pontes.
O local do evento — o campus da Universidade de Aveiro — é simbólico. Um centro de excelência científica situado numa cidade com forte ligação à engenharia, mas também à tradição marítima e tecnológica do país. O primeiro fim de semana de março, escolhido como marca temporal do congresso, reforça a ideia de uma primavera intelectual para o radioamadorismo e as ciências radioelétricas.
Num tempo de hiperconectividade digital e dependência de redes comerciais, a radiocomunicação independente volta a ganhar relevância estratégica — quer para a proteção civil, quer como plataforma educativa e de cidadania tecnológica. O Conversas do Éter mostra que há espaço para o rádio no século XXI — não apenas como nostalgia ou passatempo, mas como ferramenta viva de conhecimento, cooperação e inovação.
Leave a comment
All comments are moderated before being published.
This site is protected by hCaptcha and the hCaptcha Privacy Policy and Terms of Service apply.