Entre as muitas associações de radioamadores que pontuam o território português, poucas conseguem conjugar história, identidade institucional e continuidade técnica com a sobriedade e precisão do Núcleo de Radioamadores da Armada (NRA). Fundado a 27 de julho de 2002 por dois operadores da Marinha — António Gamito (CT1CZT) e António Pereira (CT1EGH) — o NRA é uma instituição discreta mas simbolicamente poderosa, que se inscreve numa longa tradição de excelência naval em radiocomunicações.
Apesar de jovem como entidade formal, o Núcleo invoca raízes profundas. Nos primeiros decénios do século XX, Portugal foi palco de avanços notáveis na rádio naval, impulsionados por técnicos visionários como Gabriel Prior e Ramos Pereira. Se a institucionalização de um clube naval de radioamadores demorou quase um século, não foi por falta de precedentes, mas talvez por um respeito implícito pela memória histórica que o NRA tão zelosamente veio a recuperar.
Com sede no Alfeite, no coração da Base Naval de Lisboa, e com o indicativo CS5NRA, o Núcleo não é apenas um espaço de convivência técnica, mas também um repositório de memória coletiva. A sua criação foi precedida por um trabalho de investigação quase arqueológico — um levantamento de operadores antigos e actuais da Marinha, resgatando nomes e feitos ao esquecimento. A decisão de avançar com a escritura pública só foi tomada após este esforço historiográfico, culminando na sua oficialização em 2005.
Tal como outras associações, o NRA participa em atividades operacionais — com destaque para o Concurso Dia da Marinha, evocando simbolicamente a partida das naus quinhentistas. Mas o que distingue o NRA é o seu compromisso memorial. Criou um Diploma permanente em honra de Gabriel Prior, um pioneiro silencioso da onda curta, e planeia um segundo diploma dedicado ao Almirante Ramos Pereira — patrono do Núcleo e um dos maiores nomes da radiocomunicação naval portuguesa.
Hoje, com cerca de 75 associados entre os 25 e os 70 anos, o NRA reúne-se duas vezes por mês, cultivando o espírito técnico e camaradagem que marcaram o rádio do passado e, espera-se, o do futuro. O ambiente é informal mas rigoroso, técnico mas acolhedor — um reflexo do ethos naval que ainda marca a sua cultura interna.
Num tempo em que o radioamadorismo luta pela renovação geracional e reconhecimento institucional, o NRA oferece uma lição valiosa: a de que preservar a memória é também uma forma de inovação. Num mundo saturado por tecnologias efémeras, há algo de reconfortante — e profundamente relevante — na persistência de um sinal que atravessa décadas e frequências, vindo direto do convés da história.
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